Não seria verdade se eu dissesse que o ódio de Andréa por Nina nascera no bater do martelinho daquele leilão. A coisa veio de antes. De muuuuito antes. Precisamente.... 2 horas antes! O que é absolutamente normal em se tratando de mulheres, não!? A gente acabou de esbarrar naquela loira com aquele cabelo perfeito à la Beverly Hills que “BINGO”!! ela passa a ser nosso Darth Vader, nosso inimigo mortal desde sempre. Foi mais ou menos por aí que a Andréa “Skywalker” passou a odiar Nina.
Elas se esbarraram na entrada da faculdade logo no primeiro dia. Pra variar, Nina estava tagarelando com algumas amigas, olhando para um lado e andando para outro quando trombou em Andréa.
“—Aaiii! Olha por onde anda, ô coisinha!” – gritou Andréa na época em que usar calças semi-bags de cintura alta e uma blusinha de “cotton” com estampa dos anjinhos da Fiorucci não era motivo de risadas. Ah, sem contar a sandalinha “Silvia Rabello”.
“—Desculpe! Nem te vi!” disse Nina enquanto abaixava pra pegar o caderno e a bolsa que tinham caído com a trombada.
Foi quando um par de mãos nada femininas pegou o estojo que também tinha ido parar no chão e o entregou à Nina: “—Ela sabe que foi sem querer.” – disse um lindo jovem dono de um sorriso perfeito, olhinhos apertados, quase da cor dos dela, uma sobrancelha um pouco mais arqueada que a outra e uma pinta um pouquinho acima da covinha que ficava evidente quando ele sorria. “—Aqui está seu estojo. Espero que nada tenha se quebrado.” – usava uma das mãos para tirar a franja enorme que caiu sobre seu rosto quando se abaixou para ajudar Nina.
Ela nem ouviu o que o moço de cabelos negros e lisos bem batidinho atrás e com aquela franja grossa e pesada insistindo em cair e esconder um daqueles dois lindos olhos verdes disse.
Sabe quando dois olhares se cruzam, você pára de respirar, o mundo inteiro parece que foi embaçado como se fosse uma fotografia desfocada, o silêncio é tão grande que você chega a implorar pro coração não bater só pro mocinho não ouvir como ele disparou? O frio na barriga faz sua pele inteira arrepiar, sua nuca sente uma “cosquinha” como se sem querer você fosse prender o cabelo e a ponta dos seus dedos deslizassem pelo seu pescoço e até seu maxilar treme.
Tudo acontecia em câmera lenta. Os dois foram se levantando sem uma só palavra. Pelo menos não audível aos ouvidos de Nina. Aquele sorriso branco e desenhado tentava ser imitado pela ragazza, mas o maxilar nada firme impedia que o sorriso da moça tivesse um contorno tão lindo quanto o dele. Era bem aquele negócio de quando a gente tenta rir numa foto e a pessoa demora tanto pra tirar que o sorriso “afrouxa”, sabe? A Nina de 19 anos ainda não tinha o auto-controle que a de hoje dizia ter.
“—Não olha por onde anda, menina? Quase me derruba!”
“—Desculpe.” Com um sorriso estampado no rosto, mas olhando pra pessoa errada. Nina não conseguia parar de olhar pro rosto quadrado daquele rapaz. “Eu estava indo pra fila dos bixos e acabei não prestando atenção. Obrigada pelo meu estojo.”
“—Não foi nele que você esbarrou sua louca! Foi em mim! É pra mim que você tem que pedir desculpas!” – gritava Andréa chacoalhando de raiva o cabelinho a lá Cindy Lauper em “Girls Just wanna have fun!”.
“—Não precisa! Se acalma Andréa! A menina não fez por querer.” – pegou no braço da morena de cabelos crespos e foi caminhando enquanto Nina foi rodeada pelas amigas e arrastada para a fila dos bixos.
O leilão já tinha começado e Nina estava ocupada demais dando risadas e tecendo comentários sórdidos sobre os outros bixos com suas amigas. Era muita gente. Uma gritaria. Os veteranos colocavam cada bixo isoladamente no alto de um banquinho e com um martelinho de bater carne começavam os lances. Era muito divertido ver que alguns saiam não valendo nada literalmente. E quando isso acontecia, eles iam sendo juntados de lado para depois serem vendidos na xepa!
Andréa não estava entre esses bixos apesar de ser uma deles. Mas, como era irmã de um veterano e namorada de outro, tinha lá seus privilégios. Pelo menos do leilão estava livre. Mas assistia estava lá assistindo todo aquele estardalhaço. Quer dizer, ficava reparando na jovem Nina, de longe, e com um mau humor horrível. Mas não sabia-se se o mau humor era só por causa dela ou porque o namorado e o irmão a tinham deixado sozinha.
Chegara a hora de Nina subir no banquinho. A homarada solta aquele típico grito de homem de 20 e poucos anos, faminto igual a um lobo e sedento por um belo cordeiro indefeso, sabe?
“—Temos aqui um belo exemplar. Seu nome, princesa?” – originaaall...
“—Nina. Nina Áquila.”
“—Então, senhores, temos aqui essa linda jovem de olhos verdes. Senhorita Nina.Vamos levantar um pouco o moral dela e começar com R$ 0,30. Eu tenho R$ 0,30?”
“—R$ 0,30” – gritou o primeiro interessado.
“—R$ 0,50” – Outro um pouco mais afortunado.
“—R$ 1,50” – e foram se seguindo os lances. Nina ficava feliz em se sentir valorizada.
Até que no meio dos lances, uma voz rouca:
“—R$ 20,00” – o silêncio de 2 segundos e a tentativa de localizar de onde vinha a voz foram interrompidos pelo grito do leiloeiro que gostou da empolgação:
“—Meu Deus! O que é isso? R$ 20,00? É, garota, acho que foi um dos melhores lances da estória dos leilões, hein? Cadê o feliz comprador?”
Quando surge entre os participantes um moço vestido com uma calça jeans da Taupys, com aquele cós que vinha até o umbigo, um cinto preto, botas de cano curto Zeppelin, camiseta branca escrita: “Diga a verdade, doe a quem doer. Doe sangue e me dê seu telefone”. O cabelinho “mullets” se mexia bastante enquanto ele andava em direção ao púlpito e ao mesmo tempo acendia um cigarro no canto da boca.
“—R$ 30,00!” – grita uma outra voz no meio das outros gritos daqueles lobos famintos de antes.
Um breve silencio seguindo por um clássico da época:
“—Viiiiiiiiixxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxiiiiiii!!” – a multidão totalmente sincronizada!
“—Eu ouvi 30? Alguém disse 30?” – o leiloeiro parecia realmente estar no Sotheby’s.
Antes mesmo da resposta, o “Sr. Mullets” emenda: “—R$ 50,00!”
A galera veio abaixo! Gritos, aplausos... e o ódio nos olhos de Andréa parecia fazer mais barulho que aquele povo todo. Ela queria estar muito enganada, mas conhecia aquela voz dos R$ 30,00. Daria um dos seus prendedores de cabelo da Pakalolo pra não estar certa sobre a voz.
O rapaz com a camiseta com a música dos Engenheiros já estava com aquele sorriso metálico estampado na cara, chegando pertinho de Nina quando a voz solta o que parecia ser impossível:
“—Dou R$ 100,00 por essa menina!!”
E uma clareira se abriu no meio das pessoas.
Acho que foi naquela hora que o cabelo de Andréa começou a alisar... ou a cair. Ela estava certa! A voz era dele!
“—Temos um ganhador!!!! Aproxime-se sortudo!! Venha pegar seu “Cézanne”!
E o jovem de cabelos negros e lisos se aproxima do leiloeiro, seguido pelo olhar fulminante de Andréa e olhando diretamente nos olhos de Nina. Naquela hora, à medida que ele ia se aproximando, ela ia juntando ar pra parar de respirar no momento que ele parasse ao seu lado. Era, de novo, a preocupação com o barulho que o coração estava fazendo ao bater tão rápido. Sem respirar, quem sabe ele parava um pouquinho.
O jovem da covinha ornamentada pela pinta dá o dinheiro pro leiloeiro que lhe dá um colarzinho com um pingente onde se podia escrever o nome. Ele, então, pega a caneta, escreve seu nome, se vira para Nina e lhe coloca o colar. Ainda sem respirar, ela engole seco e agradece:
“—Obrigada!” – a voz sai totalmente trêmula, fraca, sem graça.... E o arrepio sobe pelo seu corpo inteiro, já que ela precisou levantar os cabelos pra receber o colar e foram os dedos dele que, sem querer, lhe tocaram a nuca.
“—Não se preocupa não. Eu não deixaria aquele tranqueira judiar de você.” – e passa a mão no cabelo dela, bem na altura da franja, como a gente faz com crianças de 3 anos, sabe? “—Agora você está salva, criança.”
Ela nem ouviu! De novo! Só ficou ali segurando o pingente com as duas mãos enquanto via o rapaz se afastar, andando de costas, sorrindo e sendo arrebatado por Andréa como se fosse um quarterback dos Giants de Nova Iorque.
Só depois dessa cena que ela se deu conta de que além de ter passado a mão na cabeça dela como ela fazia com seu sobrinho de 5 anos, ele ainda a chamara de criança. Quem era esse cara que se achava tão mais maduro assim? Quem era o dono não somente daquele sorriso grego, mas agora, também, da escravinha italiana? Quem fazia Nina brigar com o coração para ele não fazer tanto barulho?
O pingente tinha a resposta.
Perambulando por Segóvia na Espanha
Há 3 anos


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