“—Que que foi?” – perguntava Nina ao amigo Eduardo enquanto voltavam da festa. Estavam no mesmo carro porque Eduardo sabia que a amiga sempre exagerava um pouquinho e foi de carona com outro amigo para poder voltar dirigindo o carro da moça.
“—Se quer ficar com essa ruga horrorosa no meio da testa, fique! Posso te dar o cartão do meu dermatologista depois. Ele tem essa nova técnica de aplicação de Botox que você nem sente a picada...”
“—Incrível essa sua capacidade de fingir que nada aconteceu, Nicolina Áquila!” – interrompeu Eduardo sem sequer desviar a atenção do caminho que fazia.
“—Nina!!! Nina, Eduardo!! Nem minha mãe lembra meu nome! Aliás, nem eu mesma me lembrava que chamava isso!! Você tem essa mania totalmente descartável de cortar meu barato!”
“—Cortar seu barato? Você acabou com a festa da Andréa. Foi você quem cortou o barato de alguém! Você não tem limites, Nina! Porque tinha que começar aquele papo? Você sabia muito bem como iria acabar.”
“—Ôpa, ôpa! Peraí. Em primeiro lugar, não vamos esquecer que foi o senhor quem me convidou para ir. Eu nem sabia quem eram as pessoas que estariam lá. E eu até que resisti pra entrar.”
“—Resistiu nada, Nina! Você acha que eu não conheço aquele seu truquezinho barato de fazer doce pra entrar nos lugares? Aquele papo de não chegar sozinha? Você sabia que eu iria te buscar! Você sempre sabe que eu vou!”
Um sorrizinho daqueles meio de lado brotou na boca de Nina, mas sem olhar pro amigo.
“—Bom, mas enfim... Foi ela quem começou. Parecia que queria ficar competindo comigo o tempo todo. Cutucando. Eu lá tenho culpa que o Enrico me comprou naquele leilão? Eu tenho culpa de não ter dado certo entre eles? Eu tenho culpa por ter nascido?”
“—Começo a achar que tem.”
O silêncio mórbido toma conta do carro. O caminho era longo. Nenhum dos dois fazia barulho algum. Nem respirar mais forte eles respiravam. Talvez o único som que se ouvia era o da testa de Eduardo se franzindo por lembrar dos rompantes de Nina. Já não era a primeira vez que isso acontecia. Com Andréa sim, mas com outras pessoas, ou melhor, outras mulheres... Ele nem lembrava mais quantas vezes Nina fazia alguma coisa, com a cara mais lavada do mundo e aquele ar de naturalidade e que tirava algumas delas do sério. Era um dom, quem sabe.
Eles finalmente chegam ao prédio de Nina. Eduardo vai entrando em direção a garagem.
“—Pode deixar que daqui eu sigo sozinha!”
“—Ah, ta! Do jeito que você ta, eu prefiro ter certeza de que você entrou na sua casa e se trancou lá.”
“—Eduardo, meu querido. Não sei por que você se importa tanto! Não se leve tão a sério, meu bem! Ninguém mais leva...”
Ele nem deu ouvidos e estacionou o carro. Nina desceu cantando. Cantando e interpretando a música, claro! Dentro do elevador, Nina fazia as coreografias da música usando Eduardo que só se mexia para segurar o braço da moça que quase sempre perdia o equilíbrio.
Em direção ao apartamento de Nina, ele tinha que pedir pra ela cantar mais baixo, afinal, já era tarde e pessoas normais dormem. Enquanto isso, procurava a chave da porta dentro da bolsa dela que ele se preocupou em pegar, pois ela nem lembrava mais que tinha saído com uma.
Enquanto Eduardo ia abrindo a porta, Nina viu que a porta do apartamento da frente estava entreaberta e um som baixinho saía de lá. Era sertanejo. Ela adorava sertanejo. A curiosidade matou o gato e sempre arranhava Nina.
Olhando pela fresta da porta, ela viu um monte de caixas empilhadas e algo que lhe chamou a atenção: um par de calças jeans daquelas bem surradas, desbotadas, que deixavam uma parte da cueca tipo box aparecer, uma camiseta regata branca que não era muito justa, mas cavada na medida certa para mostrar ombros largos, desenhados, que davam continuidade para braços delineados, sem nada de exageros como aqueles ratos de academia. Pêlos bem baixinhos, aparados, com certeza por aquelas maquininhas de cabelo, sabe? Cabelos escuros, um pouco compridinhos, na medida certa pra gente dar aquela seguradinha na hora “H”.
Embora parecesse uma eternidade, tudo foi muito rápido. O silêncio de Nina foi quebrado por ela mesma com a frase mais cafajeste que uma mulher pode dizer:
“—Ô lá em casa...” – suspirando...
Tuf!!!!
Uma cotovelada de Eduardo a acordou! Com o grito, o rapaz da regata branca se virou. Mais que depressa ela fugiu do pedacinho aberto da porta, mas antes pôde notar que ele tinha a barba por fazer. Como ela gostava daquilo....
“—Seu grosso! Doeu, Eduardo.”
“—Você não tem jeito mesmo, Nina! Entra logo!”
“—Já to indo, saco!”
Depois de colocar a amiga pra dentro, deu algumas recomendações, como se falasse com uma criança e disse que iria embora com o carro dela. E foi.
Nina, já dentro de casa, continuou dançando e foi pegar uma última bebida na geladeira. No caminho para o quarto, tropeçou, de novo, nas fotos jogadas no chão da sala.
“—Aí está você de novo!” – pegando a foto de Enrico na mão. “Sabia que você foi o assunto de hoje na festa que eu estava? Hahahaha Imagina só!? Aquela “coisinha” quebrou o copo na mão depois que o irmão dela revelou por quanto você me arrematou! Hahahaha” – E foi sentando no chão com o copo de vinho na mão.
O silêncio voltou a imperar e a bela de cabelos castanhos fitou os olhos naquela foto novamente. “—Porque será que você voltou?”
Regra número um para não se ter ressaca: Não beba!! Nina nunca foi fã de regras. Dessa então.... A camisola tinha sido vestida ao avesso, as roupas estavam jogadas pelo corredor que leva ao quarto e ao olhar no espelho, Nina viu um panda!
“—Droga! Gasto horrores no dermato pra dormir de rímel e lápis!”
A água gelada da pia do banheiro ajudava a tirar a maquiagem e a acordar Nina. O rosto já estava quase limpo, mas o fígado e a cabeça... Já tinha tomado uns dois litros de água e foi procurar o celular. Achou o aparelho ao lado do telefone fixo que estava fora do gancho. Sempre que ela chegava em casa muito tarde, automaticamente fazia isso. Se existia uma coisa que acabava com seu humor era ser acordada pelo telefone depois de uma balada.
No celular, 6 chamadas perdidas e duas mensagens de voz. Ela nem checou os números, mas correio de voz, tinha que checar.
“—Nina, sou eu. Só quero saber se você foi dormir direitinho e não importunou o vizinho. Espero que sim. Mais tarde eu ligo pra saber como você está.”
Segunda mensagem: “—Nina, eu de novo! Já são 2 da tarde e nada de você! Vai ficar o sábado todo dormindo? Tenho que devolver seu carro! Daqui a pouco vou sair e vou largar ele aqui no meu prédio hein?! Dá um sinal de vida!”
“—Putz... De ressaca e sem carro. E o Eduardo me dando bronca ainda! Eu mereço?” – sai falando e andando enquanto prende a cabeleira num coque de novo.
Antes de chegar no banheiro para ver se, com um banho, a ressaca ia embora, a campainha toca.
“—Que coisa esse porteiro! Ele sempre deixa o Eduardo entrar sem me avisar antes. Vou falar com o síndico sobre isso!” – volta pra sala gritando. E abrindo a porta com raiva “—Caraca Eduardo, você não disse que ia ligar de novo ou esperar um sinal de...”
“—Não sou o Eduardo!” – com um sorrisinho de canto de boca e o rosto meio baixo só com os olhos na direção de Nina e uma das sobrancelhas levemente levantada.
O baita susto de Nina a fez agir sem pensar e de supetão ela bate a porta na cara do rapaz. Encosta de costas na porta, leva as mãos na boca e com os olhos arregalados não acredita!
“—O vizinho!!”
Ele bate levemente na porta. “—Moça? Ta tudo bem?”
“—Tá, ta... Calma aí. Eu já abro. Um segundo por favor.”
Com um frio na barriga ela olha pra indumentária ridícula que estava usando, do avesso, põe a mão na cabeça e sente o triste coque e lembra que a cara de panda deixou vestígios.
“—Só um minuto que eu já abro!”
E sai correndo pro banheiro pra tentar arrumar o cabelo, joga água de novo no que sobrou do panda, dá uns tapinhas nas maçãs do rosto pra dar uma corada e pega o roupão. Era a única coisa mais próxima de uma roupa que ela poderia vestir sem deixar o moço criar raiz do outro lado da porta.
“—Desculpe-me, achei que fosse um amigo meu que viria aqui.” – abrindo a porta com o rosto mais vermelho. E não foram os tapinhas.
“—Tudo bem! Eu não queria te assustar. Só vim perguntar se você tem uma lista telefônica pra me emprestar porque acabei de me mudar e tenho que ligar pra um encanador e não tenho o número de nenhum.” – responde o vizinho com uma voz rouca que fez Nina deixar de prestar atenção na metade da frase. E ficar parada como um Az de paus.
“—Moça? Tem uma lista?” – ele precisou falar um pouquinho mais alto, já que parecia que ela não ouvia...
“—Ah! Lista! Claro, claro. Tenho sim. Peraí. Toma.”
“—Obrigado! Te devolvo daqui a pouco, ok?”
“—Não se preocupe. Pode ficar. Eu não uso muito mesmo.”
“—Então ta. Obrigado mesmo assim. Eu moro aqui na frente. Acabei de me mudar pra cidade.”
E ela ia tentando esconder o rosto e desviar do olhar dele, mas aquela barba sem fazer e o cabelinho caindo na testa não a ajudavam a despistar. Sem contar na bermuda cinza com a camiseta preta, no mesmo estilo da regata da noite anterior.
“—Fique tranqüilo. Se eu precisar de algum encanador eu te chamo.”
“—Ta certo!” – rindo baixinho “—A gente vai se ver bastante mesmo.” E se virando para sair, “—Então, tchau!”
“—Tchau!” com a voz trêmula e sem graça! – fechou a porta rapidamente e foi correndo pro banheiro.
Como ela ainda não tinha arrumado a caixa de fotos, tropeçou de novo nela e mais uma vez, Enrico parecia chamá-la. Ela pega a foto na mão.
“—É perseguição? Meu sábado vai começar assim? Um homem lindo bate à minha porta, me vê mais descabelada que Maria Betânia, eu o chamo de encanador, não pergunto nem o nome e aí vem você e volta pros meus pensamentos? O que mais pode acontecer?”
O celular toca.
“—Nina! Cadê você? Esqueceu da reunião com a empresa de Ribeirão? Eles estão esperando seu balancete!” – Era Júlia, sua colega de trabalho, ligando do escritório de contabilidade que elas trabalhavam.
Sim!! Nina era analista de negócios. Na verdade, formada em Administração com especialização em Comércio Exterior. Não bastava ser bonita. Ela tinha que ser inteligente. Isso só a irritava mais ainda, pois como uma moça tão cheia de qualidades só se dava mal com seus relacionamentos.
“—Meu Deus!! Eu esqueci completamente da reunião!! Júlia, diz pra eles que eu to em outra reunião, que acabei me atrasando e que em meia hora eu to aí!
“—Nina, mulher... você quer me quebrar? Eu já dei essa desculpe a meia hora atrás. Já liguei quatro vezes no seu celular e na sua casa só dá fora de serviço.”
“Eu deveria ter checado as ligações” – pensou Nina.
“—Jú, por favor! Agüenta mais um pouquinho. Eu já chego!” – e um grito seguido por um palavrão horrível ecoa pela sala, “—Eu to sem carro, cara***!!! Jú, do céu! Eu to sem carro! Vai demorar mais que eu falei!”
“—Poxa, Nina! E agora, cara! Não dá pra fazer a reunião sem o balancete!”
“—Não, espera! Vou te mandar por email. Aí você vai fazendo. Se der tempo eu chego. Se não, depois eu ligo pra eles.”
“—Fazer o quê, né Nina?”
E jogando o celular no sofá, Nina corre pro escritório e trata de encaminhar o balancete para o email de Júlia.
Embaixo do chuveiro, Nina se pega misturando o pensamento. Ora pensa em Enrico e no frio na barriga que ela sentiu a primeira vez que o viu, ora sentia o próprio frio de lembrar do vizinho que ela tinha esquecido de perguntar o nome. Pensava na voz rouca do “anônimo” vizinho e escutava a voz, também meio rouca, de Enrico. Era uma confusão! Que era aquilo? Como duas pessoas tão nada próximas poderiam estar tão perto dela agora? Uma invadindo seu pensamento depois de anos, sendo responsável até pelo corte na mão de Andréa sem ao menos estar presente na festa, e a outra batendo à sua porta e a presenteando com aquela imagem de homem esculpido? Será que ela o encontraria de novo?
“—Encontrar quem, Nina?” – ela mesma se perguntava. “Você está falando do Enrico ou do vizinho? Quem você quer encontrar de novo?” – como se o espelho do banheiro fosse o mesmo espelho da madrasta da Branca de Neve e fosse responder alguma coisa.
Embora tivesse “viajado” no banho, Nina tinha sido rápida. Já estava praticamente pront quando o interfone tocou. Era o porteiro avisando que Eduardo havia deixado as chaves do carro na portaria junto com um bilhete. Daria tempo dela chegar na reunião, ela acreditava.
Desceu pelo elevador, foi até a portaria e pegou os dois, a chave e o bilhete. Um doce sorriso iluminou o rosto da italianinha ao ler o tal bilhete.
“—Só você, né, Eduardo...”
Perambulando por Segóvia na Espanha
Há 3 anos


Ei Monya!Adorei seu blog!!!Virei aqui sempre ver o que andas aprontando!Aproveita e visita o blog da amiga que te falei e virou livro www.suaexcelenciaocanalha.blogspot.com você vai gostar do humor ácido e corrosivo dela!Beijo grande e sucesso, sua aluna Alice
ResponderExcluirAliás,adorei a parte das frases inesquecíveis dos filmes!Mas a de...E o vento levou é demais!!!!!
ResponderExcluirmonya, continua logo! (: a história tá muuito boa!!
ResponderExcluir