sábado, 29 de agosto de 2009

"Da minha própria lenha" - Capítulo 05

Como eu não tenho a menor personalidade, achei que seu carro precisava de uma limpezinha por dentro. Então pedi pra passarem o aspirador naquele posto ao lado do meu prédio e comprei uma coisinha pra deixar um cheiro bom nele. Espero que você goste! Ah... claro... isso tudo por ter ficado com peso na consciência depois de ter dito que achava que você tinha culpa por ter nascido... Culpa nenhuma... Agradeço todos os dias por ter você por perto! Até mais tarde, Nina...”

Era isso que dizia o bilhete que Nina seguia lendo e relendo enquanto descia pra a garagem e caminhava em direção ao carro. Ela amou o bilhete, mas uma pulguinha atrás da orelha dela trazia um certo incômodo: se o tal “cheirinho” fosse igual aos que Eduardo colocava no dele, tipo com a forma de pinheirinho, Smile face.. sabe? Ela não poderia manter o presente lá! Mas, enfim....
Carro encontrado, alarme desarmado e quando Nina abre a porta... não era um cheirinho qualquer daqueles que a gente compra nas lojas “A.M./P.M” dos postos!!. Era um buquê enorme de flores do campo! Maravilhoso! Com outro bilhete nele!

A Júlia já ligou atrás de você pra mim. Estou sabendo que se atrasou pra reunião. Só quero que saiba que estaremos esperando pelas duas, às 5h lá no Aurora’s pra comemorarmos mais uma conquista das minhas mais lindas e inteligentes amigas. Beijo

Nina dirigia e olhava as flores ao mesmo tempo. Como alguém poderia ser tão atencioso e saber exatamente o que uma mulher gosta, não!? Eduardo sempre dava um jeito de fazer o dia de Nina e de outras amigas dela que ele também era próximo, melhor. Quanto cavalherismo.... O pensamento era interrompido pelo rádio que começou a tocar a música da época em que Enrico causava frio na barriga da moça.
“E eu que falei sem pensar.. agora me arrependo, roendo as unhas, frágeis testemunhas de um crime sem perdão e eu que falei sem pensar... Coração na mão como um refrão de um bolero eu fui sincero como não se pode ser....”
Engenheiros era tudo de bom!! Naquela época! E era o que trazia, mais uma vez, Enrico ao pensamento da italiana. Mas o frio na barriga, se transformava em arrepio e trazia aquela barba baixinha do vizinho “encanador” de volta.Que confusão!!!!! O que que tava acontecendo!?
“—Preciso ligar pra minha terapeuta urgente!!” – Nina ia reclamando quando já chegou no escritório.

“—Desculpem-me o atraso, por favor.” – ia dizendo enquanto sentava na mesa, sem ao menos ter tido tempo de olhar para todos os presentes e cumprimentá-los direito. “—Espero que Júlia tenha lhes passado o balancete que fizemos sobre os possíveis resultados de uma nova franquia de suas lojas aqui em nossa cidade. Desde o terreno a ser comprado, construção do imóvel.....” – o foi falando mais que papagaio em areia quente até que foi interrompida por Julia.
“—Nina! Deixe-me, primeiramente, apresentar você para nossos novos clientes: Esse é João Carlos, gerente de negócios, Marco Pólo, está elaborando esse novo projeto de franschinsing, Margaret, vice-presidente da rede de lojas e Dr. Roberto Brum, advogado que vem representando o Presidente da rede que não pode estar aqui há tempo, mas que pode chegar a qualquer minuto.”
“—Muito prazer a todos. Perdoem-me esse jeito afobado de ser. Mas é que estou um pouco nervosa com meu atraso e acabei me descompensando.” – tenta colocar panos quentes a inteligente analista de negócios.
“—Não se preocupe, querida” – com uma voz firme, mas acolhedora vindo de Margaret, uma senhora com seus 50 anos, vestida num Gabbana impecável e um cabelo digno de tapete vermelho. – “—Sua fama já te antecedia. O balancete só nos confirmou sua competência. Já passamos pra Júlia todas as dúvidas que temos e combinamos de ter as respostas em nossa próxima reunião. Mas dessa vez, lá em Ribeirão Preto, tudo bem pra você?
Olhando pra Júlia que já sorria como quem sabia exatamente como gastaria a comissão que aquela conta traria pra empresa delas “—Claro, Sr. Margaret. Estaremos lá na data combinada.

Todos se levantaram e seguiam pelo corredor em direção ao elevador. Nina ia tentando tirar outras informações com os outros participantes e já ia se entrosando na conversa. O elevador demorou um pouco, mas, finalmente chegou. Antes que a porta se abrisse, todos já tinham se despedido e Nina e Margaret estavam bem próximas à porta, com um último aperto de mãos e confirmando a próxima reunião quando a porta se abre.
“—Chegou tarde, querido! Essas adoráveis moças já fizeram o trabalho delas! No caminho de volta, lhe coloco a par de tudo e daqui duas semanas, na próxima reunião, você saberá todo o resto.” – explicava sorrindo, Margarete, para o homem extremamente bem vestido num Armani azul escuro, “seco”, que o deixava esguio, com uma camisa num tom azulado também, mas que era quebrado por um gravata com listras vermelhas.
Nina, com a pasta de trabalho abraçada ao peito não acreditava no que seus olhos poderiam estar vendo. Ela se confundiu.... Pode ser alguém parecido, imagina...
“—Mas não terei o prazer nem de conhecer tão responsáveis moças, ou melhor, profissionais?” – enquanto saia do elevador e ajeitava o blazer que parecia ter feito sob medida pra ele ( e fora!)
“—Moças,” – a anfitriã Margaret – “Esse é nosso, atrasado, Presidente, o senhor Enrico de Alcântara Guimarães. Senhor, essas são Júlia e Nina.”
Não houve tempo para nenhuma outra reação para Nina que não fosse derrubar a pasta no chão. E quando abaixou-se para pegar, novamente sentiu aquele par de mãos nada femininas que pegava sua agenda e a entregava à desengonçada Nina.
“—Salvo engano, acho que a última vez que me ajolhei por sua causa, foi exatamente para pegar algumas coisas no chão...” – a voz continuava meio rouca, mas os cabelos já não eram tão negros e a franja já não fazia parte do contexto. Um pouquinho de grisalho na altura das orelhas trazia um charme maior aquele rosto de homem, que mantinha a pinta acima da covinha que ficou evidenciada pela ruga que o tempo trouxe e que só faz o rosto de um homem ficar melhor.
Sim... Era AQUELE Enrico!
Nina agradeceu a ajuda, levantou-se rapidamente, pediu desculpas, disse estar com uma emergência e, aproveitando que o elevador estava aberto e vazio, se jogou nele apertando o botão da garagem.
A coitada da Júlia, nada entendeu. Teve que se desculpar, tadinha...

Dentro do carro, Nina não acreditava! Não era possível! Como isso?? Primeiro ele aparece na foto, depois no ciúme de Andréa, me interrompe quando penso no vizinho “encanador”e agora isso?? Milhões de empresas no estado para cuidar do projeto dele, inclusive na cidade dele e ele vem pra cá???
Ela ainda estava dentro do carro desligado quando pegou o telefone. O cheiro das flores dentro do carro fechado por tanto tempo a estava fazendo espirrar.. rs... mas ela não ia jogar tudo fora Então só abriu as janelas.
“—Eduardo!! Preciso de um favor.. na verdade alguns. Não vou poder ir no Aurora’s com você. Liga pra Júlia e diga que depois e explico o que aconteceu. Ah, obrigada pelas flores, são lindas! Vou pra casa, desligarei o celular, meu telefone e não quero falar com ninguém até amanhã... por favor!”
“—Mas, Nina.. o que houve? Ta tudo bem? Você ta precisando de alguma coisa?” – o coitado do Eduardo não sabia o que fazer, nem dizer...
“—Preciso sim, querido amigo!”
“—O quê, Nina. Manda que eu faço. Trago a Lua se isso te fizer ficar mais alegre” – que fofo...
“—Não tenta falar comigo até amanhã. Beijo, tchau!”

Ela nem sabe que caminho fez até em casa. Não sabe a música que tocou e nem sentia mais o cheiro das flores. Mas sabe que chegou. Colocou o carro na vaga, tirou o buquê do carro e foi pra seu apartamento. Ela andava meio olhando pra baixo, meio pra cima, viajando.. como se não ouvisse nada do que acontecia ao seu redor. Já estava na frente da sua porta, virando a chave quando sentiu uma mão no seu ombro. Parecia que ela se movimentava em câmera lenta enquanto se virava.
Subitamente todos os sons voltaram a ser ouvidos, o coração deu uma acelerada e, pela primeira vez desde que estava entrando na reunião, se preocupou em passar as mãos no cabelo para ver se ainda estava no lugar.
“—Flores lindas. É seu aniversário?” – pergunta aquela voz rouca que saia de dentro daquela boca perfeita, rodeada por uma barba bem baixinha...
“—Não. Ganhei...” – como ela ficava sem graça quando chegava perto do vizinho “encanador”
“—Do namorado?”
“—Não, não.. de um amigo! Quer dizer, uma amigo amigo mesmo. Não tenho namorado nenhum.. aliás, já faz tempo que... “ – ela não parava
Rindo discretamente, o vizinho interrompe:
“—Entendi. São lindas de qualquer jeito. Mas não foi pra saber das suas flores que vim até aqui.”
“—Não?” – a voz saiu baixinha....
“—Não. Falta muito pouco pra acabar minha mudança, mas a cozinha já está pronta e eu acabei de fazer uma massa com rúcula e tomates sem pele com um pouquinho de alcaparras temperadas com um molhinho de mostarda... e não gosto muito de comer sozinho. Também tenho umas garrafas de vinhos e.......” – o moço falava com uma naturalidade.... “—Você gostaria de me acompanhar nessa tentativa de gastronomia? Rs...”
“—Oi?” – Nina não tinha ouvido metade da conversa.. pra variar
“—Quer jantar comigo?” – resumiu o rapaz.
“—Que horas? Eu acabei de chegar... nem me troquei...”
“—Você está linda assim... Assim como estava linda também com a camisola ao avesso e o roupão que usou pra tentar cobri-la. Rs.... “ – o lindo tinha ótimo humor... E uma memória que deixou Nina roxa de vergonha.
“—Mas já? Sem entrar em casa? E minha pasta, as flores?”
“—Elas vão ficar lá em casa, prometo cuidar bem delas... e de tudo mais o que vier junto.” – sem comentários quanto a isso.

Nina já estava sentada no sofá da sala, botando reparo em tudo, mas especialmente, pras formas que aquele vizinho tinha. O jeito dele pegar o vinho na mini adega com temperatura controlada, abri-lo, escolher as taças e falar com Nina enquanto fazia tudo isso era mais que delicioso. Com os copos completos, ele sentou na frente dela e perguntou:
“—Mas então?”
“—Então o quê?” – Sem entender nada a ragazza. Embora botasse reparo em tudo, Enrico gritava na sua mente...
“—Somos vizinhos de porta, já te interceptei duas vezes e nunca fomos apresentados.E foi isso que perguntei ali na cozinha: Qual seu nome?” – com um charme....
Ela não tinha ouvido... “—É Nina. Meu nome é Nina.” – respondeu sem lembrar de perguntar o dele. Mas pouco importava, porque se ela pudesse descrever o homem que ela consideraria perfeito seria aquele vizinho (ou Enrico?? Já não tinha controle sobre suas opiniões), então.... se ele chamasse Creunido, tava valendo!!! Rs...
“—Prazer Nina. Nina é um nome lindo!”
“—Na verdade é Nicolina. Mas eu não gosto muito. Acho feio. E Desde pequena minha família me chama assim e assim ficou. É duro ter um nome que a gente não gosta. Enfim.. mas você nem deve saber do que estou falando, né?! Desculpe minha tagarelice!!
“—Sei exatamente.” – deixou a taça de vinho que estava na mão direita sobre a mesinha de centro (pois estava sentando nela de frente pra Nina, que estava no sofá), ajeitou-se levantando aquele tórax torneado, tira o copo de Nina, colocando-o, também sobre a mesinha, e levando sua mão em direção à dela, diz:
“—Prazer, Nicolina! Adolvo. Adolvo Lino Pereira Junior!” – e cai na gargalhada!!!
Nina não se controla e começa a rir também.
“—Uma luta grande entra a gente, hein!? Nicolina e Adolvo!! Imagino o quanto sofreu quando mais novo!! Mas eu ainda me salvo, né?! Ninguém me conhece assim a não ser minha família. Mas e você? Todos te chamam assim.. como é mesmo?
“—Adolvo. Adolvo Lino!” – respondia rindo o lindo rapaz. “Worvinho! É assim que me chamam. Desde pequeno. O pai era Worvo e, como sou Junior... você imagina.”
Nina ria, ele ria... vinhos abertos, toques sem querer... olhares trocados... silêncio que pareciam dizer tantas coisas...um jogo de sedução discreto, mas que parecia vir de ambas as partes... Exceto pelo fantasma do presidente da empresa que, por acaso, era Enrico...
O relógio entregou: já era 1 hora da manhã. Considerando que ela havia chegado por volta das 5.... Ela tinha que ir embora. Tentou levantar e juntar a pasta, as flores e os sapatos que havia tirado... mas por duas vezes, Worvinho pedia que esperasse mais um pouco. Esse pouco já eram 2h30. Não tinha mais jeito. O vinho já estava começando a mandar em Nina.
Dessa vez ela levantou, já com os sapatos nas mãos, a pasta em punho e foi em direção à porta. A abriu e atravessando o corredor já estava na sua porta. Worvinho veio junto.
“—Uma pena... por mim poderia ter ido até amanha”
“—Também foi ótimo.” – virando de costas pra sua porta e dando de cara com aquela barba baixinha bem pertinho dela...
“—Bom saber que você estará sempre aqui por perto”. Que voz rouca mais perfeita!

A respiração de Nina já falava. E foi ficando cada vez mais inconstante quando Worvinho foi chegando perto. Como era bem mais alto que ela, o corpo do moço torneado foi se curvando para que seu rosto pudesse chegar perto do de Nina. Ela podia sentir o cheiro dele e isso já lhe arrepiava.... Com o corpo trêmulo, depois de sabe-se lá quantos anos, Nina perde o controle das mãos e, mais uma vez, a pasta e os sapatos que estavam seguros por ela foram ao chão.
A moça tentou se abaixar para pegar quando dois braços fortes, seguraram os delas quase perto dos cotovelos e a levantaram novamente. Suas coisas caídas, os braços dele segurando os dela, aproximação que causava um calor... e a boca do vizinho chega baixinho no ouvido de Nina:
“—Pode deixar que eu pego.” – e, sem querer, querendo, deixa aquela barba roçar a nunca de Nina, e uma pontinha dos lábios dele esbarram nos dela.
Os olhos dela ainda fechados, a respiração sem constância e o frio na barriga só sentiram as mãos dele soltarem seus braços. Ela parecia estar flutuando....

2 comentários:

  1. Monya,
    Estou A-D-O-R-A-N-D-O a estória!
    Já estou anciosa pelo 6º Capitulo!!!
    Esse livro vai ser suceso, com certeza! Não consigo parar de ler!!
    Parabéns!!
    Bjinhossss

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  2. Qual é o projeto da empresa do tal Enrico? Em que cidade ele mora? O terno dele foi feito na Boutique Giorgio Armani - Milano, na Via Montenapoleone nº 2 ? Por que se não foi...NÃO É UM LEGÍTIMO ARMANI feito sob medida !!!!!!!

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