sexta-feira, 31 de julho de 2009

"Da minha prórpia lenha" - Capítulo 02

Pontualidade nunca fora o forte de Nina. Outra coisa que seu ascendente em Gêmeos lhe trazia era a facilidade em mudar o foco, dispersar a atenção ou deixar para trás assuntos que antes tinham prioridade vital estabelecida por sua própria concepção.
Foi por isso que com a mesma facilidade que o filme de Enrico ficou lá na sala, fazer coreografias embaixo do chuveiro passou a ser a atividade indispensável. Ainda mais quando já quase no final do banho o radinho, que nunca poderia deixar de ser ligado antes mesmo de a água cair, começa a tocar uma versão em português de “Total Eclipse of the heart”, de Bonnie Tyler.
“—Melhoor!! Sensacional!!” – foram as palavras ditas por Nina parada embaixo do chuveiro, prestando atenção àquela música como quem ouve a um concerto e realmente gosta de concertos....
“—Meu Deus preciso acordar! Me faça acreditar que sonhei! Me faça acreditar! O meu coração tenta me conduzir para que eu possa aceitar... não quero aceitar o total eclipse do amor!” – era outra de suas habilidades.
Conseguia decorar músicas de primeira. Alias, em época de eleições, Nina cantarolava todo e qualquer jingle de político. Mesmo que ela nem soubesse quem era. O jingle era sabido. E musiquinhas de comerciais? Todas!
“ – Total Eclipse do amor é óóótima!!”.
O banho se estendeu porque a seleção de músicas bregas daquela rádio era fenomenal. Uma pérola atrás da outra obrigavam Nina a desenvolver caretas, dancinhas, usar o xampu como microfone, agradecer as palmas, rir da própria situação...
Um intervalo interrompe “os clássicos” e acorda Nina para a realidade.
Já saindo do banho, ela ainda cantarolava “Total Eclipse of the Heart” quando o telefone toca.
“—Eduardo, cuore mio! Você não vai acreditar na música que eu ouvi!”
“—Nina, você ta pronta? O povo lá é meio chato pra atraso.” – ele sempre tentava contornar os atrasos de Nina, mas tinha dias em que ficava bem difícil. Ela já chegou ao cúmulo de ser madrinha de casamento e aparecer depois da noiva! Uma falta grave na elegância de Nina.
“—Claro, Du! Fica tranqüilo. Em meia hora eu estarei lá!” – o pior é que ela nem ficava mais vermelha com isso. Ela sabia que não cumpriria o prazo. Tanto que ao desligar, soltou a frase que sempre vinha após essas promessas: “—Don’t make promisses you can’t keep!”
“—Eu ouvi, Nina!!”
Os trinta minutos que seriam o tempo limite para ela estar no local combinado serviram para se arrumar. E foram mais que suficientes. Com os cabelos lindos por natureza, não se fazia necessário o uso de artifícios para deixá-los invejáveis. Uma camisa branca, com pequenos babados que desciam junto com os botões e faziam par com os punhos, ganhava um certo colorido com o charmoso lenço em tons diferentes de verde amarrado com um nó despojado simulando uma gravata pronta para ser desmanchada. Seus olhos pareciam ter sido pintados com a mesma tinta do lenço. Como aqueles caras fazem com Paintbrush, sabe? Copiam e colam. Era assim. E pra deixar ainda mais claro que eram verdes, um pequeno traço de lápis preto dentro dos olhos o faziam como esculpidos em jade.
Olhou no relógio e viu que já passavam das nove. Um sorrisinho de canto de boca, uma acelerada até o quarto onde estava a bolsa e rumo à porta de saída. No caminho chutou, sem querer, a caixa de fotos e ainda ralhou com ela. Sua volatilidade nem a deixou lembrar dos rostos que havia visto naquelas revelações.


A regra era clara: não se chegava sozinha a uma festa, nunca! Jamais! Nina achava que não pegava bem. Na verdade achava que passava a impressão de solteirona, sozinha... então não gostava disso. Mas já eram dez horas! Todos já estavam lá. Ela estava parada na frente da casa, dentro do carro pensando no que fazer. Lembrou que Eduardo disse que só haveria dois ou três conhecidos lá e resolveu fazer um drama pra ver se conseguia o que queria.
“—Du?”
“—Onde você ta Nina?”
“—Então... to aqui na frente, mas acabei chegando tarde e não quero atrapalhar nada. Aí só liguei pra agradecer o convite e dizer que eu vou embora. Além do quê, eu não conheço todo mundo aí.” – com uma vozinha meio triste, cabisbaixa.
“—Pára com isso Nina. Você conhece sim! E eu já esperava seu atraso. Te falei que era às oito e meia, mas era só às nove e meia, então você está na hora.” – E falava isso enquanto se levantava do banquinho onde estava sentado, próximo ao balcão que dividia a cozinha em estilo americano da sala de jantar onde estava armada a linda mesa com potinhos de várias cores que combinavam entre si e seriam preenchidos com os caldinhos cozidos durante a noite.
Acompanhando Eduardo com os olhos, estava Andréa. As unhas pintadas à moda “francesinha” com dois centímetros de “Bianco Puríssimo” entregavam o tipo da moçoila. Os cabelos pretos, tingidos, alisados por uma progressiva bem meio meio, iam até a metade das costas. Uma parte deles caia sobre o decote escondendo a fartura dos seios recém adquiridos que muitas vezes pareciam querem saltar de suas blusas. O monte de pulseiras em cada um dos pulsos emitia um som tão notório que mesmo com toda aquela música e conversação, chegavam a confundir com a campainha. Alguém tinha que ter avisado a pobre coitada que não se usa mais jeans “délavé”, por Cristo! Se Nina fosse amiga íntima dela, com certeza o faria. Mas não era. Nem de longe.
Daí entendia-se seu olhar fulminante na direção de Eduardo. Ela sabia o que ele iria fazer. Andréa mexia o canudo em seu copo como quem prepara uma poção venenosa e vai pensando na vítima.
“—Ah, Du! Deixa pra lá!” – Nina insistia no papel de vítima – “Eu nem me arrumei direito. Estou tão simplezinha.”
“—Você está linda!” – disse Eduardo abrindo a porta do carro de Nina. “—Alias, como sempre!”
Bingo!! O plano deu certo. Ela não entraria sozinha na festinha.
A festa caminhava muito bem quando os dois abriram a porta para entrar. Segurando o copo com uma das mãos e o canudo com a outra enquanto tomava um gole de caipirinha de kiwi, Andréa deixou-se engasgar com um pedaço da peludinha fruta.
A tosse chamou para Andréa a atenção ora dedicada à Nina. Mas por alguns segundos. Ao constatarem que tudo estava bem com a morena, passaram a cumprimentar Nina e serem apresentados por Eduardo.
“—Eu gosto dela!” – uma vozinha baixinha e muito safada foi ouvida por Andréa. Era seu irmão, Rodrigo. Um moreno que já fora mais bonito na época de faculdade, mas que tinha lá seu “quê” ainda. Se Andréa fosse Ciclope, era teria matado Rodrigo ali mesmo com um feixe de seu olhar.
“—Eu não te perguntei nada!”.
“—Relaxa, Dé. Ela não tem culpa de ser mais bonita que você.” – o irmão gozador teve que se abaixar para não ser acertado pelo gelo que Andréa tirou do seu copo e mirou bem no meio da cara de Rodrigo.
Eduardo já havia apresentado Nina a quase todos e só faltava cumprimentar os conhecidos. Aí se encaixavam Rodrigo e Andréa.
“—E esses, você se lembra, não?”
“—Você... não me é estranho... essa sobrancelha falha... covinha no queixo... Você não é o irmão daquela moça.... daquela que estudava comigo... que entramos juntas na faculdade. Fomos calouras da sua turma de veteranos e vocês encheram o cabelo crespo dela com serragem. Ficou parecendo um ninho de mafagafo! Um horror!” – fazendo uma careta. “—Como é mesmo o nome dela?” – Guardar informações recentes ou remotas de gente que Nina não gostava ou que lhe era indiferente era de praxe. Dar foras, mais ainda.
“—Andréa. Esse era o nome!” – fazendo uma força terrível para não rir da cara que Andréa fez quando ouviu aquilo tudo. “—E o meu é Rodrigo. Encantado.” – o malandro segura na mão de Nina e lhe beija com uma certa vagarosidade. Eduardo, de canto, segura a risada diante da cara de pau do amigo e da situação da irmã ao lado sendo totalmente ignorada por Nina – inconscientemente, é verdade.
“—Nossa, Rodrigo! É você mesmo! Ta diferente. Bonito, mas diferente!” – ela precisava aprender a se controlar melhor. “—E essa morena bonita? Sua namorada?”
“—Não. A criadora de mafagafo!” – responde a própria Andréa.
Silêncio mórbido por uns segundos. Nina sente um certo calor vindo de dentro da camisa branca. Tinha certeza que estava ruborizada. Olhares entre os quatro se cruzam. Parecia até que a música tinha parado e as pessoas haviam se congelado no tempo.
“—Hahahaha! Eu sabia, sua boba!! Estava só brincando com você! – tenta se salvar a tempo a esquivante italianinha.
Os outros também caem na risada. Com um tapinha leve no ombro esquerdo de Andréa, diz, enquanto vai saindo meio assim de lado:
“—Você está linda! Mas isso, você sempre foi! Ainda mais “grande” assim, não? O tempo só te ajudou.”
Não houve tempo de Andréa sequer responder. Nina já estava do outro lado da sala pegando um copo de vinho. Eduardo ao lado da amiga ria discretamente enquanto dizia:
“—Você é uma das maiores tranqueiras que eu conheço. Não tem vergonha de ser tão caruda?”
“—Cuore... e você acha que eu perderia essa chance?” – dizia enquanto saboreava o Merlot que lhe serviram.
“—Truco! Sabia nada, Nina. A mim você não engana!”
“—Será que não?” – E deixou Eduardo também sem tempo pra resposta.
Já estava totalmente entrosada na festa!
Muita conversa, muito caldinho, vinho, margueritas, risadas.... o tempo voa nessas horas. É fácil olhar pro relógio e se deparar com os ponteiros marcando três da manhã. Como era fácil também notar o desprendimento de Nina que a essa altura já estava com quase toda a casa reunida em volta dela para ouvir suas histórias engraçadíssimas.
A cada risada de Nina, uma úlcera estourava no estômago de Andréa. É incrível como algumas pessoas são capazes de perder a noite por outra pessoa que nem sabe o que está acontecendo.
“—E teve aquele leilão logo nos primeiros dias de faculdade! Leilão de calouros mesmo. Seríamos escravos dos veteranos até o dia 13 de Abril, quando da Libertação dos Escravos. Cada figura, meu Deus!” – e Nina ia contando em meio à gargalhadas as peripécias de alguns bixos no meio da farra.
“—Eu me lembro que paguei R$ 0,15 centavos por um moleque tão mirradinho, coitado.” – Dizia Eduardo. “—Que não dava conta nem de levar meus livros até o carro.
“—Já eu... me dei muito bem com aquela ruivinha linda que me custou R$ 3,00. Quer dizer, R$ 3,00 de saída, né!? Como mulher é um trem caro!!
E foi uma chuva de guardanapos, canudinhos, gelo...
“—Calma, calma... tem mais. O que ninguém pode deixar de falar é da disputa entre dois veteranos que levantou praticamente toda a verba para o churrasco.” Ia contando Eduardo em tom provocador enquanto ia olhando “de esgueio” para Rodrigo como quem estivesse acendendo o estopim da bomba que estava prontinha “—Nossa querida amiga Nina foi arrematada por nada menos de R$ 100,00”.
Aplausos, gritinhos e muita risada enquanto a bela moça se curvava agradecendo os elogios.
“—Ah! Claro! Foi arrematada pelo, na época, namorado da minha irmã!”
O copo de caipirinha de kiwi acabara de se partir em pedaços na mão de Andréa que descobrira que não poderia mesmo ser Ciclope, pois teve a força de Wolverine para quebrar aquele vidro ao mesmo tempo que outra úlcera estourava e todos da festa a olhavam.

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