terça-feira, 15 de setembro de 2009

"Da minha própria lenha" - Capítulo 06

“—Pronto!”
O silencio imperava...
“—Nina, aqui estão suas coisas.” – repete Worvinho. Parado, em pé, na frente de Nina, que permanecia na posição na qual foi interrompida enquanto se abaixava para pegar suas coisas. “—Nina, está tudo bem?” – o moço estava com os braços esticados e com a pasta e as flores nas mãos.
Nina abre um dos olhos primeiro, depois o outro, levanta levemente a cabeça e volta a respirar... “—Ah.. Desculpe... Obrigada.” – Se levanta rapidamente, pega suas coisas e numa velocidade inacreditável, abre a porta e entra. Mais uma vez, bate a porta na cara de Worvo.
“—Obrigada pelo jantar! Estava ótimo!” – gritou do outro lado da porta.
O rapaz, com todo o charme que Deus lhe deu (terá mesmo sido Ele? Rs...) e sabendo exatamente o motivo daquele afobamento responde com o sorriso mais cafajeste que um lindo homem tem o direito de ter:
“—Não precisa agradecer. Outros virão. Boa noite!”
Ela nem respondeu. Ainda estava encostada na porta, com as flores todas amassadas e despetaladas. A pasta era a responsável pelo dano.
E ali ela ficou. Parada um tempo sem conseguir organizar seus pensamentos. Sabe quando você não pensa em nada? Era assim que ela aparentava estar. Um movimento rápido com a cabeça a faz colocar o cérebro em funcionamento de novo.
“—Alguém manda o mundo parar que eu quero descer?” – e sai andando pra cozinha.
As coisas jogadas no sofá, inclusive o buquet que Eduardo havia lhe dado e que nem de longe se pareciam com flores mais, o sapato em cima da pasta e o casaco, que havia acabado de tirar, caído no meio do caminho. Foi direto pra prateleira do armário planejado que ficava sobre a pia e pegou uma garrafa de vinho. Tem quem pense que isso ajuda a esquecer os problemas... Nina achava, quando já tinha bebido um pouco antes, que o vinho só lhe ajudava. Coisas de Nina.

Sábado, 3h00 da manhã e Nina estava sentada no lugar que ela mais gostava da sala: no tapete de sisal de tom neutro, encostada no canto do sofá forrado em chenille bege, quer dizer, “Light Yellow Chestnut”. Abraçada às pernas, pra variar, com a garrafa de vinho aberta sobre a mesinha e a taça meio cheia (ou meio vazia) numa das mãos.
Tudo passava por sua cabeça. Ao mesmo tempo, nada era digno de formar uma frase entendível sequer. Muita coisa em pouco tempo. Muita coincidência Enrico ter “pulado” daquela foto. Muito bom o coração acelerar de novo por um rapaz interessante, charmoso e que jamais tinha passado pela porta de seu cemitério. Mas e aí?? O que significava tudo aquilo? Mas porque ela estava se preocupando? Qual o problema nisso tudo? Enrico era só uma lembrança. Ela nem sabia o que era feito da vida dele. Podia estar casado, com 3 filhos... separado talvez... viúvo quem sabe... sem filho nenhum por sorte....
“—Pára!” – ela grita! “—Nina Áquila, pare com isso agora! A sorte bate literalmente à sua porta e você se preocupando com quem, talvez, nem se lembre daquele único encontro que tiveram?” – a respiração acelerava quando ela lembrava do “talvez”... e se ele, talvez, se lembrasse? “—Tá ficando louca, mulher? Um presente desses bem do outro lado da sua porta e você fazendo doce? Ou será que ele faz isso cada vez que se muda? Quantas vezes já deve ter mudado? O que mesmo ele faz? Não me lembro...” – e um monte de perguntas saíam vezes pela boca, vezes só em pensamento.
Aquela auto-sabatina foi durando até o final da garrafa. Já era claro quando, Nina se levantou, “catando cavaco”, e foi pra cama. Dormiu de roupa mesmo!

“—Nina.” – uma voz era ouvida lááá no fundo pela moça que estava desmaiada em sua cama. “—Nina, acorda.” – a voz insistia, mas Nina não tinha forças pra responder.
“—É assim que se faz Eduardo!” – e num sacolejo, Júlia acorda Nina que assustada grita:
“—Que foi? Que ta acontecendo? Fogo? Onde? Pega minha caixa de relógios e a dos óculos também, por favor!” – e cai de novo na cama.
“—Vamos Nina! A gente quer saber o que houve. Porque saiu correndo daquele jeito do escritório? Nem imagina a cara que eu fiquei lá.” – falava bem brava Júlia.
“—Enrico...” – com uma voz quase inaudível ela respondia.
“—Enrico?” – Eduardo pergunta.
“—É! O presidente da empresa para qual a gente vai trabalhar. Ela viu o homem, derrubou tudo no chão e saiu correndo! Me largou lá sem saber de nada. Daí você me ligou e o resto é isso aí!” – apontando pra amiga caída na cama.
“—O Enrico que estou pensando?” – pergunta Eduardo para Júlia, mas olhando para Nina.
“—Ah, ta!! E eu sou Walter Mercado pra adivinhar seus pensamentos, Eduardo?” – Júlia não tinha estudado com eles. Tornaram-se amigos através de Eduardo que apresentou as duas quando soube do interesse comum que ambas nutriam por análise de negócios, comércio exterior, franchising... Já tinha ouvido falar de Enrico, mas bem de leve. Jamais ligaria o nome à pessoa. “—O que ta acontecendo?”

Depois de muito tempo e muito custo, estavam os três na cozinha. Já era o quarto copo de água de Nina e nenhuma palavra saia de sua boca. O relógio já passava do meio dia e o domingo era chuvoso.
“—E aí, Nicolina? Vai contar?” – num tom bem rude dizia Eduardo.
“—Dizer o que? Eu só fiquei surpresa em ver o Enrico depois de tanto tempo. Ainda mais depois da festa de sexta, Eduardo. Só isso!” – sem olhar pra nenhum dos dois que pareciam colunas do Templo parados na sua frente.
“—Sei... aí veio pra casa e encheu a cara!” –como se Eduardo não conhecesse a amiga.
“—Não.. parei no Worvinho antes.” – com o copo na boca, ficou quase impossível entender o que ela disse.
Os dois guardas do castelo de Buckhingham se olharam e ao mesmo tempo soltaram: “—Onde??”
Já não havia mais água no copo, mas este permanecia na boca de Nina. “—No Worwinho.”
“—Que isso? Algum barzinho novo? Espero que tenha vindo de taxi!” – Júlia tinha essa mania de simplificar tudo. Tudo pra ela era inocente, justo, honesto... já sofrera tanto com isso.
“—O carro dela ta aí, Júlia, pelo amor de Deus! Esqueceu que paramos meu carro na outra vaga dela?” – Eduardo já tinha os pensamentos, digamos, mas tendenciosos. “—Por acaso, isso aí que você falou fica do outro lado do corredor, Nina?” – num tom que misturava interrogação, brabeza e, ao mesmo tempo, uma ponta de esperança para ouvir um “não”.
“—Não, mas é que foi assim...”
“—Começou com “não” já ta errado!! O que você aprontou, Nina?” – interrompeu Eduardo bem bravo.
“—Helloooo!!! Eu estou aqui também!!” – Júlia se sentia excluída! “—O que você quer dizer com “outro lado da porta”? Que porta? Tem alguém no quarto de hóspedes?” – só a Júlia mesmo!!
“—Fica quieta, Júlia! Anda Nina, fala!”
E então a moça começa a contar tudo o que aconteceu. Desde o susto quando entrava em seu apartamento, os batimentos acelerados, os vinhos, as vezes que tentou ir embora, tudo caindo no chão de novo e como bancou a tonta ficando de cócoras no chão, com os olhos fechados achando que o vizinho lhe beijaria.
“—Daí eu entrei, peguei outro vinho e tentei descobrir o que estava acontecendo.” – já se servindo de mais um copo de água.
Eduardo sai da cozinha em direção à sala, pega as chaves do carro: “—Voce vai comigo, Júlia?”
Júlia olha pra Nina sem entender nada. A amiga apenas consente com a cabeça e fala baixinho: “—Amanhã eu explico tudo no escritório. Vai com ele.”
Sem retrucar nem proferir mais nenhuma palavra, Júlia dá um beijo na amiga e vai atrás de Eduardo que já estava chamando o elevador.
Nina a segue até a porta. Do corredor ela diz a Eduardo:
“—Não sei porque essa raiva. Não fiz nada de errado. Não saí por aí pra encher a cara, não dirigi bêbada... nem saí do meu prédio.”
Sem se virar, Eduardo responde: “—Ainda não, Nina! Ainda não fez. Mas já está querendo acordar um morto e se enroscar em um futuro defunto! Você nunca leva nada a sério!” – e o elevador se fecha.

Aquilo tocou Nina de um jeito esquisito. As palavras “nada a sério” não saíam de sua cabeça. Ela já estava a meia hora no banho e só pensava nelas. “—Porque ele disse aquilo? Claro que eu levo! Trabalho, me mantenho, sou ótima profissional... só não dou sorte no amor, oras. Isso é não levar nada a sério? Ele pensa que é meu pai ou minha terapeuta pra dizer alguma coisa sobre mim?” – mas enquanto falava, as palavras de Eduardo insistiam em gritar na sua mente.
Com o roupão que tanto gostava, sentada na cama, ainda pensava naquilo. Recordou as coisas que poderiam te-lo feito dizer aquilo. Talvez seus relacionamentos passados? Mas a culpa não era dela! Era deles!! Eles é que não sabiam como tratá-la! “—Será que o problema sou eu? Será que esse negócio de insegurança ou insatisfação vem de mim?”

O domingo terminou com uma daquelas pilulazinhas mágicas pra dormir.

Segunda de manhã e Nina já estava no escritório quando Júlia chegou.
“—E aí? Posso saber o que acontece?” – Júlia já sentando na cadeira em acrílico vermelho que combinava muito bem com a sala toda branca, mesa em inox com design de uma amiga que hoje mora na Noruega, quadros muito bem escolhidos e que tornavam a sala da italiana em uma extensão de sua personalidade.
“—Nem eu sei amiga, nem eu sei... O que você faria se um amor de faculdade reaparecesse na sua vida?”
“—Sei lá... Acho que só tive um amor durante a faculdade. E casei com ele! E o desgraçado me traiu. Então acho que eu o espancaria!!” – Júlia também tinha o dedo podre, coitada!
“—To falando sério, Júlia! E pior! Se esse antigo amor reaparecesse e um outro homem, que tem tudo pra ser O amor novo e perfeito pra você surge exatamente ao mesmo tempo?!”
“—Eu jogaria na Mega-sena porque, com certeza, seria meu dia de sorte!”
“—Não dá pra falar sério com você!”
Ambas são interrompidas pela secretária que abre a porta só o suficiente para caber sua cabeça:
“—Desculpem, mas é que chegou um senhor aqui que diz que precisa muito falar com vocês.”
“—Agora não, Sheila!” – responde Nina. “—Diga para esperar um pouco que estamos resolvendo uns problemas.”
“—Mas é que ele insiste...” – a moça é quase que empurrada pelo homem atrás dela que termina de abrir a porta.
“—Espero que seja sobre minha empresa que as senhoritas estejam falando!” – Num terno cinza, perfeitamente cortado, com uma camisa branca e uma gravata azul com listras no mesmo tom do terno, o cabelo grisalho e um sorriso evidenciado por uma maldita covinha ornamentada por uma pinta, entrava Enrico.
“—Vim buscar minhas meninas para almoçar!” – a voz rouca....
“—Mas ainda são 9h30 da manhã!” – Júlia olhando para o relógio.
Nina não se pronunciou. Fingiu pegar umas folhas e escrevia qualquer coisa nelas.
“—Mas antes quero lhes mostrar o lugar que escolhi para montar a loja. E até vermos tudo, já é hora do almoço.” – falava para as duas, mas olhava para Nina enquanto se sentava na outra cadeira vermelha.
Júlia, apesar da inocência, pensou rapidamente e foi logo dizendo:
“—Infelizmente eu não posso ir. Tenho outro cliente agora às 10hs. Talvez possa encontrá-los no almoço. Mas Nina irá, com certeza, não, Nina?”
Lembram daquele olhar que Andréa fez para o irmão dela quando ele disse que gostava de Nina? Pois então, era o Ciclope que olhava para Júlia naquele momento!
“—Mas eu também tenho esse cliente agora. E no almoço tenho que resolver umas pendências pessoais...” – com os dentes serrados.
“—Não se preocupe com o cliente! Eu cuido dele! Quanto às pendências pessoais, tenho certeza que você terá tempo de resolver uma ou duas delas...” – Nina não reconhecia aquela Júlia! Que rapidez era aquela? Que malícia? Onde ela queria chegar?
“—Resolvido, Senhorita Nina! A senhora vem comigo!” – E, levantando-se, Enrico estende a mão em direção à Nina. “—Vamos?”
O olhar de Nina era totalmente oposto ao de Júlia que parecia estar feliz com a situação. Achou que pudesse estar ajudando, sei lá.
Da sala de Nina, pelo corredor, no elevador, até o saguão do prédio, a única frase dita pela moça foi ao responder “tanto faz” quando Enrico lhe perguntou se poderiam ir no carro dele. Até fingir que o celular tinha vibrado e simular uma conversa, Nina fez. E a conversa nem caiu dentro do elevador e durou até o carro chegar.
“—Senhorita...” – Enrico abrira a porta do carro para Nina entrar, como um perfeito cavalheiro.

Enquanto ele dava a volta no carro para entrar, ela fechou os olhos e gritava por dentro: “—E agora? P*** que pariu!!!”

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