Até o carro tinha o perfume dele. Até o carro parecia ter sido feito sob medida pra ele. O bom gosto musical, a climatização perfeita... Nem as lombadas eram sentidas. Na verdade, nem a voz dele, ela ouvia – o que era INERENTE à Nina!
“—Mas então, Nina. Você ainda não me respondeu. Esse mundo é mesmo pequeno, não!?
“—Ah, sim! É sim!” – olhando pra frente.
“—Já se passaram quantos anos? 10, talvez?”
“—Por aí, eu acho.” – monossilábica.
“—Mas até onde me lembro, você não era assim tão calada. Sempre falante, dona de si, da situação... Será que a Nina que eu conheci mudou tanto?” – olhava pra ela enquanto dirigia e fazia aquela covinha gritar no ouvido de Nina.
Realmente! Aquela não era Nina! Até parecia que ela estava andando de carro com o cara que fez aquele filme “A morte pede carona”! Ela tinha que fazer alguma coisa. Pelos menos deixar seu lado atriz vir à tona e agira normalmente. Respirou bem fundo, lembrou de todos os pensamentos positivos que sua terapeuta lhe ensinara e se ajeitando no banco, colocando-se meio de lado, levemente inclinada para Enrico começa a falar:
“—Não mudei não, Enrico. Amadureci. Só isso! Depois dos 30, você aprende que certas coisas já não são mais tão graciosas nem tão bem interpretadas quando se tem apenas 20 anos. Continuo a mesma Nina, mas agora, ao invéz daquela menina que você ajudou a pegar o material, arrematou no leilão e levou pra ver o sol nascer, sou uma mulher que escolhe, compra e manda entregar o material que precisa, arremata quadros para enfeitar suas paredes e que, algumas vezes, pede pro sol não nascer pra poder ter mais tempo para resolver algumas coisas.” – na lata!!!! Agora sim as coisas estavam voltando ao normal. Ela estava assumindo as rédeas! Pelo menos as dela!
“—É... Desde o momento que te vi de novo tinha certeza que o tempo só lhe tinha feito bem. Em todos os aspectos.” – olhando de canto de olho.
“—Acho que posso dizer o mesmo sobre você, Enrico.” – com toda a classe, elegância e o charme que ela também tinha.
Daí em diante a conversa fluiu. O caminho foi suficiente para Nina saber que Enrico não havia se casado, que ao terminar a faculdade, foi trainee de uma multinacional (isso ela lembrava, pois quando eles tiveram aquele único encontro, ele já estava nessa empresa) e que ao final do contrato, foi morar em Londres para trabalhar na matriz e fazer pós graduação e doutorado por lá mesmo. Que se encantou por uma linda francesinha, mas não o suficiente para fazê-lo desistir de voltar ao Brasil depois de 5 anos fora. Que de volta, resolveu abrir o próprio negócio, e que em quase 6 anos, já tem 6 filiais por vários estados. Ufa!! Ela nem teve tempo de falar dela quando o carro parou.
“—Chegamos! Vamos ver?” – estavam na frente do prédio onde seria a nova empresa.
Enrico foi entrando no prédio, cumprimentando a todos como se tivesse estado lá várias outras vezes. Já no elevador, ela, sorrindo diz:
“—Nossa! Você já conhece todo mundo? Quantas vezes veio visitar esse lugar? Eu nem sei se ele está dentro da estimativa que fizemos para o novo local.”
“—É meu! Eu comprei há uns meses. Uma pechincha. Foi por isso que voltei pra cá e decidi montar outro negócio aqui.” – com a naturalidade de quem estivesse falando da compra de um jogo de copos novos pro bar que tem e casa, sabe?
O silencio era o que preenchia o espaço do elevador até chegarem ao 11º andar.
O lugar era lindo. Amplo, com acesso ao andar de cima, janelas enormes deixando o ambiente claro, mas não excessivamente, madeiras perfeitamente colocadas no chão que davam dó de serem pisadas, maravilhoso!
Agora era o empresário Enrico quem falava. Ela ouvia algumas coisas, mas outras não, pois estava imaginando quem chamaria para decorar, se precisaria de alguma reforma, quem seriam os responsáveis, arquitetos, engenheiros... e um “puf” veio à sua cabeça: Worvinho era engenheiro! “Será que ele poderia fazer alguma coisa aqui?” – o pensamento voou longe. “—Mas será que vamos precisar de um? E eu fico como? Enrico e Worvinho no mesmo lugar? Melhor não, melhor não... Deixa as coisas como estão. Por partes, Nina, por partes....”.
“—O que achou, Nina?”
“—Ótimo! Só estou pensando nas alterações que teremos que fazer para que nossa estimativa esteja atualizada diante disso. Sem contar nas reformas que serão necessárias, decorar um lugar assim tão grande...” – dizia enquanto andava pelo amplo salão e olhando todos os detalhes que lhe eram perceptíveis. Sua fala foi interrompida quando sentiu uma mão quente segurando a mão livre da bolsa.
“—Tenho certeza que você fará um excelente trabalho.” – Ela conhecia aquele olhar. Era o mesmo de 10 anos atrás. Um pouco mais talvez. E quase tão perto quanto da última vez. Ela podia sentir o perfume dele e o calor de sua respiração lhe esquentava o colo discretamente à mostra. O coração de Nina estava prestes a explodir.
“—Sempre busquei o que quis na minha vida. Nunca acreditei nesse negocio de sorte. Minha sorte é ser competente. E eu poderia dizer que fui extremamente competente em escolher seu escritório para cuidar da minha empresa.” – e foi chegando mais perto.
Os olhos dela já piscavam mais lentamente e todo o resto do mundo parecia estar em camera lenta. O calor da respiração dele já era sentido no rosto de Nina. Ela, entretanto, não respirava. Quando a outra mão de Enrico seguiu em direção aos cabelos de Nina e pareciam se encaixar no que seria, praticamente, uma ressuscitação (sim, pois quem já não respirava ha tanto tempo, só poderia estar morta), um celular toca! Era o dela!
Com o susto, Nina deixa a bolsa cair no chão e se perde das mãos de Enrico. Completamente sem graça, ela se abaixa pra pegar e mesmo ele dizendo que pegaria, ela se recusou. Precisava ficar de costas pra ele um tempo para se recuperar. Meio sem jeito, afobada, procura o celular na bolsa que não parava de tocar. Atende sem ao menos ver quem era.
“—Alo!!” – uma voz tremula e ofegante.
“—Nina? Ocupada?”—uma voz de homem do outro lado.
“—Não, pode falar. Quem é?” – dizia isso enquanto, gesticulando, pedia um minutinho para Enrico que, como todo cavalheiro, se afastava dela para dar-lhe privacidade.
“—O encanador. Rs... Liguei pra dizer que você esqueceu seu porta-cartões aqui em casa. E como tem seus números nele, resolvi ligar.” – atencioso....
Ela ficou pálida!! Pálida era pouco! Não havia cor alguma em sua pele. Ao mesmo tempo, um calor que subia pelo seu pescoço a fazia sentir-se totalmente ruborizada.
“—Ah... ah, sim! Não tem problema! Eu pego depois, ta? Desculpe-me mas tenho que ser breve, estou com um cliente.” – a voz nem saia direito.
“—Eu sei. Poderia esperar você voltar, mas é que queria uma desculpa pra te ligar. Nos falamos mais tarde então. Bom dia pra você! Beijo.” – que fofo!
Nina desliga sem se despedir! Se vira pra Enrico que não estava mais por perto e agradece a Deus por ter tempo de se recompor. Era Worvinho!!!!
“—Ai meu Pai do Céu!! O que é isso? O senhor ta de brincadeira comigo? É pra me deixar louca? Dois solteiros lindos, interessantíssimos, resolvidos na vida... e o Senhor me faz ter que escolher? Quer me por à prova? Ou quer que eu vire uma messalina? O, Deus meu!! Porque? Porque?” – sai um pouco mais alto do que deveria essa última frase e Enrico, do andar de cima pergunta:
“—Tá me chamando? Estou aqui em cima. Venha.”
Nina sobe. Já recomposta pede desculpas e voltam a falar da empresa como se suas respirações não tivessem chegado tão perto uma da outra.
“—Acho que podemos ir, não!?” – sugere Enrico.
“—Ir onde?”
“—Almoçar. Já passou do meio dia e a gente nem percebeu.” – olhando para o Cartier Tank maravilhoso naquele pulso de homem.
“—Então, Enrico. Acho melhor deixarmos pra outro dia. Era um cliente no celular. Tenho que voltar pro escritório. Tenho mesmo.” – mentiroooosa!!
“—Tem certeza?” – chegando perto...
“—Tenho sim. E não precisa me levar. Eu vou de taxi.”
“—De modo algum! Faço questão.”
“—Eu prefiro, Enrico. Por favor.” – o olhar dela o fez entender que ela precisava de um momento para entender o que “quase” aconteceu no andar de baixo.
Desceram um pouco calados e das poucas palavras que se ouvia, o assunto era a reforma. Por sorte, ou não, havia um taxi na porta do prédio. Nina se despediu de Enrico enquanto ele pedia ao manobrista seu carro. Aproveitou isso para só se despedir de longe. Antes que ele pudesse falar algo, o taxi partiu.
Os mesmos pensamentos que tomaram conta dela quando voltava pra casa depois de rever Enrico no sábado estavam martelando-lhe a cabeça. Agravados pela noite na casa do vizinho, o calor da respiração de Enrico no salão de onde será a nova empresa, o telefonema de Worvinho.... Ela chegou no escritório e avisou Sheila que não estava nem para o Papa. Não queria atender ninguém. Mal sentou-se em sua cadeira absurdamente presidencial quando o celular tocou novamente. Com um frio na barriga, o tirou da bolsa. Era Júlia.
“—Desculpe amiga. Não posso falar com ninguém agora. Perdão” – em voz alta, mas sem atender à chamada.
Virou a cadeira para a janela e ficou ali... pensando, pensando... estava fazendo muito aquilo ultimamente. E sempre o mesmo assunto, ou melhor, os DOIS mesmos assuntos. E, por mais que pensasse, não encontrava solução. Acontece que mais perguntas sem resposta vinham à sua cabeça. Porque um homem tão bonito, charmoso e rico não havia se casado até agora? Porque um lindo engenheiro que acabara de conhecê-la se mostrava tão carinhoso? Será que Enrico é daqueles conquistadores profissionais? Por que Worvinho lhe ligou e não esperou ela chegar? Enrico escolheu seu escritório de propósito? O vizinho era mesmo tudo aquilo que mostrou ser na noite de sábado?
Segunda-feira perdida. Nina já não tinha mais cabeça pra trabalhar. Juntou suas coisas e saiu. Avisou Sheila que tinha que resolver umas coisas na rua e foi pra casa. A secretária nem perguntou se ela voltaria, pois embora Nina não tivesse notado, já eram quase 4h da tarde. Sabia que a chefe não voltaria.
No apartamento de Nina, tinha uma varanda onde ela adorava ficar. E era lá que ela estava. De calça de moletom cinza, regata branca, coque no cabelo e tomando um chá de camomila pra ver se tudo se acalmava. Acho que não preciso mais dizer sobre os pensamentos dela, não?
O telefone toca e ela deixa a secretária atender. Como tinha abaixado o volume, não soube quem era... e nem se preocupou. Tinha outras preocupações.
A vista da sacada era linda! E por algum tempo ela conseguiu parar de pensar nos seus DOIS problemas. Quem me dera ter problemas assim! O dia já se fazia noite e estava começando a esfriar. Ela resolveu entrar e preparar alguma coisa leve pra matar a fome, já que não tinha almoçado. Porém, quando estava abrindo o armário para ver o que seria feito, algo lhe fez tomar uma decisão inesperada.
A campainha toca. A porta se abre e, dessa vez, quem está do lado de dentro do apartamento para atender à campainha é Worvinho. Do lado de fora, Nina, em pé, com a mesma roupa da sacada, mas sem o coque, claro, com um vinho numa das mãos e uma pequena cestinha onde trazia uns queijos (ah, sim... ela sempre os tinha guardados – adorava queijos).
“—Eu sei que hoje é segunda-feira, mas como eu esqueci meu porta cartões aqui e você, muito gentilmente, guardou-o pra mim, resolvi vir buscá-lo. E seria uma indelicadeza vir e não trazer nada como agradecimento, não?” – com um sorriso leve no rosto, indecifrável para que não conhece Nina. “—E como ainda é cedo, achei que não haveria problema em degustarmos esse ótimo vinho e comer um pouquinho desses maravilhosos queijos”.
Era claro e ululante o sentimento expressado pelo rosto do lindo vizinho. Apenas um sorriso de canto de boca, um gesto educado para pegar as coisas das mãos de Nina e um passo pra trás deixaram o caminho livre para a italiana entrar.
A porta se fecha atrás dos dois.
Perambulando por Segóvia na Espanha
Há 3 anos


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