sexta-feira, 23 de outubro de 2009

"Da minha própria lenha" - Capítulo 08

“—Bom dia, Sheila!” – um sorriso radiante fazia Nina mais bonita que o normal. “—Bom dia, Jonas!” – era o mirim. “—Está um lindo dia, não?”
A secretária e o menino se olharam sem entender aquele entusiasmo todo e voltaram ao trabalho assim que a chefe entrou em sua sala.
Nina coloca suas coisas sobre a mesa de inox e ao se sentar em sua cadeira de presidente, com um impulso dado pelos seus pés, rodopia feito criança quando senta em cadeira giratória.
Já devia ser a terceira volta quando ela percebe que Júlia está parada em frente à sua mesa, com os braços na cintura e a boca meio aberta sem entender aquela apresentação infame do Cirque Du Soleil.
“—Oi, Julinha! Nem te vi entrando.” – um pouco ruborizada e juntando a papelada que nem estava desarrumada.
“—Posso saber o motivo te tantos dentes à mostra e cabelos soltos ao vento?”
“—Nada, ué! Uma mulher não pode acordar de bom humor de vez em quando?” – desviando o olhar da amiga que já a conhecia muito bem.
“—Poder, pode. Mas não quando ela foge de um dos nossos clientes e não retorna as ligações de uma amiga preocupada. O que ta acontecendo, Nina?”
Trazendo a cadeira pra mais perto da mesa e colocando os papéis de lado, Nina se apóia nos cotovelos e como uma menina de 16 anos se debruça em direção a amiga, soltando um sorriso que ofuscaria os olhos de qualquer pessoa. “—Eu beijei um moço liiiiindo ontem! Acho que estou apaixonada!” – e mais uma rodopiada.
“—Como assim? Conta tudo desde o “oi”!!” – bem papo de adolescente isso!
E Nina contou. Desde a cara de pau em levar o vinho e os queijos para Worvinho, a conversa que fluiu maravilhosamente, o jeito como foram se aproximando, os beijos que trocaram, o carinho com o qual ele a tratou, a noite voando lá fora, o filme que passava na TV e que nenhum dos dois prestavam atenção.. até acordar com o dia claro, deitada no sofá da sala dele, com ele deitado no tapete ao seu lado mas com as mãos esticadas para alcançar o braço dela(o coitado deve ter acordado com câimbra, tadinho...) e VESTIDOS!
“—Vestidos? O que você quer dizer? Depois de tudo isso, vocês ainda pararam pra se vestir antes de dormirem? Isso quebra o romantismo!” – dando um impulso para trás com inconformidade.
“—E quem disse que nos vestimos “de novo”? Nunca nos despimos! Não houve o que você está pensando, sua tarada!” – o sorriso de adolescente voltava aos seus lábios. “—A gente só se beijou, se abraçou, se acarinhou. Tudo muito doce, calmo...” – ia olhando pra cima como se o filminho estivesse passando no teto.
“—Ah, ta! Me engana!”
“—É sério!” – já recomposta. “—Não chegamos às vias de fato, se é o que quer saber. Senti que era preciso ir mais devagar dessa vez, pois ele me faz sentir uma coisa que nunca senti antes. E não quero atropelar tudo. E como ele deve ter percebido, não avançou o sinal.” – agora Nina já retomava seu posto de profissional.
“—Eu hein!? Um homem que é tudo isso que você fala, se comportando assim tão bem... sei não!”
“—Júlia, vamos trabalhar que ganhamos mais.”
“—Ok! Só vim aqui pra dizer que o Enrico ligou e pediu pra avisar que surgiu um imprevisto na filial de Porto Alegre e que El vai ter que passar a semana lá. Pediu desculpas, mas teremos que seguir o projeto sem ele. Disse que a Margareth pode tomar as decisões por ele nesse período.”
“—Ótimo! Por mim, melhor ainda! Eu preferiria que fosse ela o tempo todo!” – disse aquilo da boca pra fora, pois mesmo a empolgação com Worvinho não conseguira encobrir 100% do frio na barriga que Enrico lhe causava.

Outro dia se passou e mais uma noite bem gasta na companhia do vizinho. Outra noite de adolescente. Mas ela estava adorando aquilo tudo. Era como se pudesse fazer tudo certinho, passo a passo, tentando costurar tudo pra não perder o ponto...

Mais um dia de correria no escritório. Elas não tinham só o projeto do Enrico pra tocar. Eram outros clientes que cobravam coisas. Mas aquela rotina agitada era ótimo pra Nina e Júlia. Elas adoravam o que faziam.
Ao final de mais uma reunião, sozinhas na sala de Júlia, Nina demonstra um ar preocupado:
“—Faz três dias que o Eduardo não dá notícias. Será que está tudo bem com ele? Ele sempre liga. Mesmo depois de um desentendimento como o de domingo. Lembra-se das flores do sábado, Júlia?”
Sem tirar os olhos do relatório que estava terminando, Júlia responde com naturalidade:
“—Eu falei com ele ontem. Ele ligou pra saber como estavam as coisas, perguntando se eu queria almoçar com ele, mas eu estava enrolada e marcamos pra amanhã, quinta-feira.”
“—E porque você não me disse?” – inconformadíssima.
“—Não disse o que?” – ainda fitada no relatório.
“—Não disse que o Eduardo ligou! O que ele falou? O que queria? Perguntou de mim?” – com um tonzinho de ciúme leve...
“—Eu já disse. Perguntou como estavam as coisas e me convidou pra almoçar.” – já se virando para Nina.
“—Que coisas? Coisas do escritório? Suas coisas? Perguntou de mim?”
“—Perguntou do escritório, das minhas coisas....” – bem reticente e meio encabulada a coitada da Júlia.
“—E de mim, Júlia? O Eduardo perguntou de mim?” – o tom subiu um pouquinho.
“—er... não Nina. Ele não perguntou...”
Aquilo doeu. Nina se levantou meio desnorteada e seguiu em direção à sala sem responder ao chamado da amiga que pedia para ela esperar.

Sentada em sua cadeira, olhando pra janela, Nina pensava no motivo de Eduardo te-la posto de lado. E também no motivo pelo qual aquilo lhe doía tanto. Ele era só seu amigo. Um D.C., é verdade, mas há tempos que era so um amigo. Mas aí se lembrou das palavras dele na porta do elevador. Tudo voltou a doer. Ela resolve ligar para o amigo.
“—Atende, Eduardo. Atende...” – o telefone chama, mas ninguém responde. Caixa postal e ela desliga sem deixar recado.
Com o celular encostado no rosto, tenta entender. “—Porque?”.
O sinal de nova mensagem de texto assusta Nina e a faz parar de pensar naquilo. Era uma mensagem de Worvinho: “Acreditaria se eu disse que estou com saudades? Beijo”
Um sorriso acompanhado de um friozinho na espinha a levaram de volta aos momentos vividos nas últimas noites. Ela resolve responder: “Acreditaria. Mas vou ter que conferir pessoalmente. Até mais tarde. Outro beijo.”

Era o terceiro encontro oficial com Worvinho. Tudo parecia perfeito. Ele tinha lhe comprado flores, havia velas sobre a mesinha de centro, um vinho delicioso para acompanhar o peixe que ele havia preparado... O clima perfeito para qualquer coisa.
E foi qualquer coisa. Naquela noite, a adolescente voltava a ser mulher.

No dia seguinte, Nina queria compartilhar o momento mágico que tinha vivido com a melhor amiga. Mas Júlia não estaria no escritório naquela manhã. Ela tinha dois clientes pra visitar. Tinha que esperar até o almoço.
Já passava das e da tarde quando Júlia chega e Sheila avisa Nina – ela havia pedido pra secretária avisá-la. Nina vai até a sala da amiga para contar-lhe tudo.
“—Júlia, florzinha! Eu preciso te contar sobre a noite passada!” – e interrompe a narrativa quando se deparar com Eduardo sentado na cadeira em frente à mesa de Júlia. “—Eduardo? Desculpe. Não sabia que estava aqui.” – sem graça e sem o sorriso que antes estava estampado em seu rosto.
“—Estava. Já estou saindo.” – e levantando sem olhar direito para Nina quando passou por ela em direção à porta, disse: “—Foi um ótimo almoço, Júlia. Vamos fazer isso mais vezes, como quando costumávamos fazer isso entre amigos.” – e saiu fechando a porta.
“—O que foi isso, Júlia? O que ta acontecendo?”
“—Nada oras... Ele ainda ta chateado por conta de domingo. E ficou mais ainda quando soube que você está vendo o vizinho todas as noites e...”
“—Você contou pra ele????” – interrompe a amiga com um grito. “—Porque você fez isso? O que ele vai pensar? E agora?” – andava pra lá e pra cá na frente da mesa de Júlia que fazia uma cara de “oi?”.
“—Porque? Não era pra contar? Era segredo? Você não disse nada. Ele perguntou se você estava bem e eu disse que estava maravilhosamente bem, pois achava que estava apaixonada pelo Worvinho.”
“—Não acredito! E ele? O que disse?” – ofegante
“—Nada de mais. Só um “quem bom” e pronto.” – respondeu Júlia. “—Mas o que ia me contar mesmo?”
“—Nada de importante. Nada. Deixa pra lá. Depois eu conto.” – e sai da sala mais pensativa que quando toda essa confusão começou.

O problema com Enrico e Worvinho era diferente. Eles eram preocupações, dúvidas, incertezas.... Mas porque essa indiferença de Eduardo estava doendo tanto? “—Vai ver é só saudade do amigo que sempre fora tão carinhoso comigo.Que sempre me entendeu, me apoiou. Me mimava... É! É isso! Ele ta chateado porque eu não contei do Enrico no domingo e não disse nada do Worvinho até agora. Mas ele também nem me ligou!! Eu liguei!! Liguei e ele não me atendeu! Isso passa. Logo passa.”

Na sexta-feira Nina avisa Júlia que só trabalhará até a hora do almoço, pois vai passar o final de semana na praia com Worvinho. Estavam numa perfeita lua de mel! Uns dias à beira mar seriam perfeitos para dar à italiana a certeza de que aquele sentimento era diferente. Era concreto. Pelo menos pra se começar alguma coisa. E foi....

Começo de semana. A manhã quase que inteira foi dedicada à descrição do que havia sido o final de semana perfeito. Júlia parecia mais adolescente que Nina ao ouvir a estória da amiga. Um almoço com Margarete, a representante de Enrico mudaria o curso normal da semana.
“—Júlia, Nina... O problema em Porto Alegre era maior do que esperávamos e Enrico terá que se ausentar por mais alguns dias.” – discretissimamente, Nina respira aliviada com medo desse “novo reencontro”. Continua a executiva: “—Mas houve um acidente em outra filial nossa, a de Campo Grande e eu preciso que uma das duas vá comigo até lá, pois teremos que refazer o projeto, estimar os custos da reforma, enfim.... E como foi você que nos apresentou o primeiro projeto, Nina, achei melhor que fosse você minha acompanhante.”
“—Mas eu? Eu tenho tanta coisa pra fazer aqui. Não sei se posso me ausentar. Na verdade, acho que nem eu nem a Júlia poderíamos. Temos outros clientes...” – tentando arrumar desculpas para escapar.
“—Eu tenho certeza que Júlia é suficientemente competente para gerenciar tudo por aqui. Não é mesmo, Júlia, querida?” – seria impossível negar alguma coisa àquela classe de mulher.
“—Bem... Er... Claro... Sem dúvida, Margarete. Nina, pode ir tranqüila. Qualquer coisa, a gente vai se falando pelo telefone.” – meio gaguejando, mas saiu.

Já não havia escapatória e lá estava Nina entrando no carro que fora buscá-la em sua casa menos de duas horas depois. Num jatinho particular, as duas voavam para Campo Grande. A única coisa que deu tempo de fazer além de jogar suas roupas na mala, foi deixar um bilhete embaixo da porta de Worvinho, já que o celular estava fora de área e nem na caixa postal caía: “W. Terei que viajar a negócios e passarei um ou dois dias em Campo Grande. Antes de sair já estou com saudades. Mas vou usar as lembranças desse final de semana para te deixarem perto de mim. Se cuide e tenha certeza que voltarei assim que puder para compensar o tempo perdido. Beijos, Nina.”

O que, em princípio, seriam um ou dois dias, viraram 5. Nina só conseguiu falar duas vezes com Worvinho nesses dias. E da segunda vez ele foi meio “apressado”. Ela achou que era porque ele estava ocupado. Nem conseguira avisá-lo que chegaria na sexta-feira. Enfim.... Já com Enrico, ela falou todos os dias e, pelo menos, 4 vezes em cada um deles. Mas se restringia a assuntos profissionais. Ambos, na verdade. Com Júlia, falava por email todos os dias, mas perguntando mais sobre o escritório. Um ou outro assunto versava para o lado “amigas”, uma vez perguntou de Eduardo, mas Júlia disse que não o tinha visto naquela semana, pois tinha conhecido um rapaz maravilhoso e que já tinha almoçado com ele duas vezes. Mas que os detalhes seriam contados pessoalmente.
Antes de embarcar no jatinho de volta pra casa, Nina liga para a amiga para dizer que já já chegava e que a esperava em casa para saber das novidades.
“—Ai, Nina... Hoje não vai dar. Vou jantar com o Júnior!” – Depois de dois almoços, era a primeira vez que teriam um encontro de verdade. – “Desculpe, amiga. Mas nos falamos amanhã, ok?”
Nina desejou boa sorte a amiga e desligou o celular. Durante o voo, pensava na saudade de Worvinho, na facilidade com que lidou com Enrico e na falta que seu amigo Eduardo lhe fazia. Quanta coisa ao mesmo tempo...

Já em casa, antes mesmo de desfazer as malas, foi bater à porta de Worvinho. Um sorriso cheio de vontade iluminava seu rosto.
Toc toc toc.
Nada!
“—Será que ele está dormindo? Mas é cedo ainda? Pode estar no quarto e não ouviu as batidas. Vou tocar a campanhia.” – e toca.
Nada... Mais uma vez. Nada....
Volta pro seu apartamento, pega o celular e liga. Desligado! Deixa um recado: “Oi Worvo! Sou eu! Acabei de chegar e estou morrendo de saudades. Fui até seu apartamento e você não está. Me chame quando chegar. Beijos.”

A noite já era alta, quase meia noite. A viagem cansativa fez Nina adormecer no sofá....
Sem nenhuma notícia de Worvinho.

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