sexta-feira, 24 de julho de 2009

"Da minha própria lenha" - Capítulo 01

Já fazia um certo tempo que Nina não pensava nele. Na verdade, muito tempo que nem se lembrava. O que era normal na cabeça dela, pois Nina era uma mulher que já não tinha mais aquele negócio de pensar em alguém especificamente. Pelo menos era o que ela ficava afirmando. Essa coisa que mulher madura e sozinha tem de passar o domingo na frente do espelho e dizer que está muito bem do jeito que está, que não precisa de ninguém ao seu lado, que é auto-suficiente... Daí, quem sabe convencendo ela mesma, os outros acreditam.
O fato era que na pequena sala de 16m2, recém redecorada, o sofá em forma de “U” forrado em chenille num tom que qualquer pessoa normal classificaria de bege, mas nas amostras de tecidos da loja de sofás estava como “Light Yellow Chestnut” e que se destacava mais ainda por ter um de seus lados encostados numa parede texturizada e pintada em um lilás atrevido, não fora o lugar que a bonita descendente de italianos escolhera pra sentar.
As pernas dobradas próximas ao próprio corpo a ajudavam a se encaixar na esquina formada por um dos cantos do tal sofá em “U”.
Enquanto uma das mãos revezava entre segurar as pernas que estavam apoiando sua cabeça e tirar da frente de seu rosto os longos, grossos e muitos cabelos castanhos que tinham a cor específica daqueles chocolates meio amargos que se derretiam aos montes nos fondues nessa época de friozinho bom, a outra mão ia mexendo com algumas fotos que estavam guardadas num armário antigo, que já não fazia mais parte de sua mobília, jogadas de forma aleatória sobre o tapete de sisal num tom neutro que não interferia no sofá “Light Yellow Chestnut” nem no audacioso lilás.
Eram fotos colocadas sem nenhuma ordem cronológica ou mesmo um assunto em comum. Num mesmo álbum, havia uma foto de Nina pequena, brincando em cima do capô do Dodge Dart Sedan 1970, amarelo, 198 cavalos com a capota preta que seu pai tinha logo que ela nasceu e outra de seus amigos num bar em Porto Seguro numa das viagens feitas antes dos seus 20 anos. Em outro envelope com mais algumas fotos, ela relembrava o primeiro casamento de sua melhor amiga enquanto fazia caretas ao se deparar com a foto de um de seus “de cujus”.
É isso mesmo. Era assim que ela qualificava seus relacionamentos que não deram certo. Preferia considerar os ex pretendentes mortos a admitir que eles poderiam não querer terem se matado por perderem uma preciosidade como ela. Essas analogias tendem a se agravar à medida que os anos aumentam e a solteirice persiste.
O que Nina não confessava nem à sua psiquiatra era que pra evitar o trabalho de despender algumas horas conhecendo uma nova pessoa, num encontro sem pretensões talvez, ela recorria ou cedia aos habitantes do além túmulo. Era verdade que desde que seu último relacionamento duradouro acabou, há cerca de dois anos, ela tinha tentado ter a paciência de dar chance para um novo “ser vivo”, mas como não deu certo, ela praticamente decidiu virar médium e só conversar com mortos. É claro que alguns deles não dava nem pra chegar perto diante do avançadíssimo estado de decomposição ou até por dividirem a cova com outra pessoa, se é que me faço entender. Mas alguns fantasminhas eram bem camaradas. O da careta não era. E foi por isso que logo ela jogou de lado num monte de outras fotos merecedoras de diferentes formas faciais o tal “de cujus”.
Mas não se podia dizer que o cemitério da bella ragazza era pequeno. Não era tão grande assim, claro, mas tinha um número bom de jazigos. Por conta disso não demorou muito para que aquele rapaz lhe aparecesse nas fotos. Era uma foto de muitos anos. Quase uma década. E, na verdade, nem estavam juntos na foto, pois ele não poderia ser considerado um D.C. (trataremos assim a partir de agora os “de cujus” para que esse fúnebre termo não esteja mais tão presente em nossa narrativa), uma vez que não tinha sido um real ex pretendente. Enrico era um antigo “frio na barriga”. Um flerte que percorreu toda a época universitária e que desencadeou num único encontro no ano seguinte à formatura, na tal festa retratada na foto que estava segura pela mão direita de Nina, que assim como aquela que insistia em segurar uma mecha dos cabelos macios, estava enfeitada com um esmalte que não bastava ser vermelho, tinha que se chamar Volúpia.
Porque tanto tempo sem ouvir de Enrico? Porque a proximidade, os sorrisos trocados, os olhares trombados e que tinham quase a mesma cor só lhes renderam uma única vez? E porque aquela bendita vez agora lhe parecia nunca ter saído da cabeça?
Nina esticou as pernas, colocou a foto sobre elas enquanto usava as duas mãos para colocar toda aquela moldura capilar para trás e fazer um coque nem um pouco firme. Coque feito, já querendo desmoronar, a foto voltou às suas mãos e mais uma olhada nela a fez fechar os olhos e sentir de novo o frio na barriga de antes.
Parecia que a pequena salinha tinha tomado proporções enormes e ela lembrou daquele momento como se assistisse a um filme. Apesar de se ver na tela, ela podia sentir cada uma das sensações ao mesmo tempo que a personagem as vivia. Desde o momento da foto, que precedeu a primeira vez que Enrico segurou em seu braço e lhe ofereceu uma bebida até a hora que eles atravessavam a pequena estrada que separava onde a festa acontecia do penhasco onde eles viram o sol nascer juntos. Até o cheiro dele ela podia sentir. Os detalhes estavam tão claros em sua mente que ficara extremamente fácil confirmar que ele ficava lindo naquele jeans escuro que destacava ainda mais a pólo cor-de-rosa um pouco escondida pela jaqueta com traços de blazer em brim preto. E nem adianta achar que ela viu isso na foto porque só havia rostos nela.
Eu não poderia mensurar quanto tempo Nina ficou ali, sorrindo sozinha, arrepiando com as lembranças daquele dia e mexendo nos cabelos que o coque desmoronado lhe trouxera novamente à frente do rosto. Mas posso dizer o momento em que tudo aquilo acabou: quando o celular tocou. Ainda eram sete e pouco da noite quando o toque nada baixo do telefone despertou Nina daquele sonho. Era um D.C.. Mas Eduardo tornara-se um amigo querido ao longo dos anos e realmente não passava mais disso. O telefonema era um convite para um caldinho despretensioso na casa de uns amigos que gostavam de brincar de chefs nos finais de semana.
Nina teve que soltar a foto para atender o celular, pois a mão que se via livre do aparelho fora ocupada para anotar o endereço. E nesse tempo entre atender celular, levantar para pegar papel e caneta e dar umas risadas por conta da conversa, ela foi indo em direção ao quarto de vestir para separar a roupa que usaria.
Desligou o celular, pegou o roupão preto felpudo que ela adorava e estava pendurado atrás da porta do quarto, entrou no banheiro e abriu o chuveiro. Enquanto a água caía e o rádio do banheiro era sintonizado, Enrico, a foto e as lembranças foram deixados no chão da salinha ao lado do canto direito do sofá de chenille bege.
O caldinho começava às oito e meia.

2 comentários:

  1. Nina me fez perceber que não sou a única a conversar com os mortos. Também faço isso de vez em quando, até que uma manifestação do mundo real me traz de volta e assim deixo pra traz as sensações que sinto quando assisto esse filminho e começo a rir...
    Ela é real!

    Mô, adorei e vou fazer o possível pra acompanhar...
    bjos
    Nicole Pelosi

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  2. olha posso so te da dar uma sugestão, naum se prenda muito em detalhes pq isso torna o ritmo lento, a historia demora pra desenrolar, mas no resto cxontinua me surpreendendo viu, uma historia moderna, urbana do jeito que eu gosto viu, meus sinceros parabens, fique com Deus seja feliz e tudo de bom, continue inspirada desse jeito ta, beijossssssss

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